PRÓXIMO NÚMERO

Nº 4/5 — ARTE E ACTIVISMO POLÍTICO

Eugène Delacroix - La liberté guidant le peuple, 1830

Eugène Delacroix, La liberté guidant le peuple, 1830

Arte e activismo político

«Todos aqueles que até agora conseguiram a vitória participam desse cortejo triunfal em que os senhores de hoje marcham sobre os corpos dos vencidos de hoje. A este cortejo triunfal pertencem também os despojos como sempre foi uso. Esses despojos são aquilo que se define como os bens culturais. (…). Não há nenhum documento de cultura que não seja também documento de barbárie». (Walter Benjamin, Teses sobre a Filosofia da História, tese VII, Paris 1940)

Pensar em arte e activismo político implica articular dimensões como o espaço público, a sua ordem social, o jogo de poderes, o lugar da arte no seu seio, as estruturas e dinâmicas de produção e recepção artísticas, com os seus regimes de crítica ou submissão/alienação, o modo e lugar das próprias obras e a eficácia da sua acção, etc. Este activismo supõe aqui uma intervenção de dimensão pública onde encontramos a fatalidade de uma confrontação política (que assumimos aqui numa acepção alargada, derivada da etimologia fundadora de polis como lugar da cidadania e da comunidade).

Se a arte sempre teve uma relação com a política, nem que seja enquanto voz dos poderes, o pensamento crítico que emergiu com a Era Contemporânea como marca antitética do próprio Iluminismo, anunciou uma tensão interna na relação entre cultura e poderes. Coincidente com a autonomização da esfera artística e animada por um processo público e de democratização da cultura, esta tensão começaria a verificar-se sobretudo a partir do século XVIII. A meio do século seguinte, já no seio das contradições da cidade industrial e burguesa, Marx denunciava que a cultura (e a arte) se tendia a estabilizar na história como espólio e voz da classe dominante – bem expresso na epigráfica frase de Walter Benjamin. A arte perdia inocência e, entre a liberdade do individualismo romântico e o compromisso social dos realismos, assumia já responsabilidades críticas – Daumier, Courbet ou a importância da caricatura no século XIX, foram alguns exemplos.

Um conjunto de tensões estavam lançadas para a cultura: entre vanguardas artísticas e vanguardas políticas; entre autonomia da esfera artística e o seu contexto político e social; entre produção e recepção; entre liberdade e compromisso; entre dimensão crítica e/ou utópica; etc. Este torna-se assim um tema de trabalho com perigos de excesso de latitude, tantas as suas possibilidades, obrigando a um esforço de concentração numa produção artística que assume essa acção no espaço social, onde o estético se ultrapassa por outra urgência de proeminência ética. Num tempo em que o neoliberalismo domina de modo tão global, com um poder tão vigoroso como nebuloso, dissimulado da visibilidade e discussão pública, inserindo-se na cena política de forma camuflada e a coberto dos seus reais valores, para a subverter e dominar, muitas das tradições da política parecem estar em causa e por vezes parecem ser inócuas. Tal obriga a repensar o lugar de uma arte que age criticamente na esfera da política. É na consideração desta situação presente que o apelo à reflexão sobre arte e activismo político (nos seus diferentes desdobramentos e acepções como arte activista, activismo artístico, artivismo, entre outras) se faz também com o desejo de entender essa actualidade de novos modos de poder.

Estas premissas fundamentam o desafio para este dossier temático, ou seja, reflectir sobre arte a partir da ideia de que os artistas e restantes trabalhadores da cultura desempenham um papel imprescindível na sociedade, porque as artes são também um terreno de luta, de luta pela hegemonia cultural mas também ideológica e política. Mas o desafio, partindo dessa concepção, não se finda nela, porque aqui poderemos reflectir acerca do papel dos artistas enquanto activistas políticos, mas simultaneamente acerca do seu trabalho artístico activista, como o demonstram inúmeras práticas artísticas contemporâneas.

As práticas que se constituem simultaneamente como exercício artístico e participação na luta política serão então o principal objecto de análise deste dossier. Para que tal aconteça, é necessário ter como ponto de partida o modelo e estrutura social, política e económica onde essa prática artística se desenvolve e age, e qual a posição que a mesma toma relativamente a ela. Estamos em data do centenário da revolução russa, a que a edição deste dossier fatalmente se liga, não como directa comemoração, mas como uma espécie de efeméride de cogitação ou de reflexão crítica. Porque é exactamente a relação entre a arte e a sociedade que ali aconteceu, nas suas várias dimensões de transformações e articulações, mais lentas ou mais aceleradas, mais críticas ou mais utópicas, onde a arte assume um papel decisivo, um protagonismo, que aqui nos interessa. Ao fim de um século dessa marcante revolução, continuam a ressentir-se os ecos desse que foi um momento de abertura de estratégias de reflexão entre a arte e as suas directas possibilidades (e responsabilidades) de acção política e social.

Trata-se essencialmente de recuperar a marca da arte que age criticamente no seio da sociedade para lhe transformar a consciência política e que, na tradição de autores como Hegel, Marx, Adorno, Marcuse, Althusser, Foucault, Deleuze ou Baudrillard, entre outros, deve ser pensada para além da estrita ligação à propaganda ou alienação, ou à cristalização dos ismos artísticos ou políticos.

Sabemos que a complexidade e abrangência do tema permitem diferentes abordagens, mas por necessidade programática, arriscamos a apresentação de alguns enunciados:

  • Confronto dialógico entre práticas artísticas de períodos e contextos culturais, sociais e políticos distintos;
  • Resistência cultural e acção política dos artistas e trabalhadores da cultura;
  • Possível resistência e crítica ao terreno das indústrias culturais e da globalização capitalista: metodologias, estratégias e efeitos;
  • Elucidações e propostas de activismo artístico: caracterização, objectivos, estudos de caso, contextualização histórica;
  • Condições de produção, de apresentação e de fruição: estratégias de consciência, resistência e luta perante o neoliberalismo;
  • Relação e tensão entre as instituições do mundo da arte e da política, em termos tanto de inclusão como de exclusão;
  • A produção artística inserida em esfera de acção política, na sua acepção colectiva, sobretudo em momentos revolucionários – tal como aconteceu, como meros exemplos, nos primeiros anos da Revolução de Outubro, a partir de 1917, no que foi a dinâmica das vanguardas russas, ou em Portugal nas intervenções colectivas e de rua nos anos do pós 25 de Abril de 1974.

 

Art et activisme politique

« Tous ceux qui jusqu’ici ont remporté la victoire participent à ce cortège triomphal où les maîtres d’aujourd’hui marchent sur les corps des vaincus d’aujourd’hui. À ce cortège triomphal, comme ce fut toujours l’usage, appartient aussi le butin. Ce qu’on définit comme biens culturels. (…). Il n’est aucun document de culture qui ne soit aussi un document de barbarie ». (Walter Benjamin, Thèses sur le Concept d’Histoire, thèse 7, Paris, 1940)

Réfléchir sur l’art et l’activisme politique implique d’articuler plusieurs dimensions telles que l’espace public, son ordre social, le jeu des pouvoirs, le rôle que l’art y tient, les structures et les dynamiques de la production et de la réception artistiques, mais encore ses régimes critiques ou de soumission, les moyens et la place des œuvres elles-mêmes, l’efficacité de leur action, etc. Un tel activisme suppose une intervention d’ordre public ouverte à la confrontation politique (au sens large, étymologique de la « Polis », lieu de la citoyenneté et de la communauté).

Si l’art a toujours eu un lien avec la politique (ne serait-ce que comme la voix de son maître), la pensée critique qui émergea à l’ère contemporaine, sorte de symptôme négatif des Lumières, souleva le voile sur la tension inhérente à la relation culture-pouvoir. Cette tension émergea principalement à partir du XVIIIe siècle, parallèlement à l’autonomisation de la sphère artistique et dans le sillage d’un procès public de démocratisation de la culture. Au milieu d’un XIXè siècle déjà perclus des contradictions de la ville industrielle et bourgeoise, la voix de Marx s’éleva pour dénoncer la place que la culture (et l’art) avait progressivement acquis au cours de l’Histoire, celle d’un butin et d’un serviteur de la classe dirigeante – idée que l’on retrouve énoncée dans notre épigraphe de Walter Benjamin. L’art perdait finalement son innocence et, pris entre la liberté de l’individualisme romantique et l’engagement social du réalisme, il assuma de nouvelles responsabilités critiques – Daumier, Courbet, la caricature du XIXe siècle en fourniraient maints exemples.

La culture se trouva ainsi un nouveau jeu de défis et de tensions à affronter : entre avant-gardes artistiques et avant-gardes politiques ; entre l’autonomie de la sphère artistique et son contexte politico-social ; entre sa production et sa réception ; entre la liberté et l’engagement ; entre les dimensions critique et utopique ; etc. On le voit, le thème de ce dossier court peut-être le danger d’une trop grande liberté et d’horizons trop larges, de sorte qu’un effort de concentration sera nécessaire pour se focaliser sur la production artistique prenant effectivement place dans l’espace social, alors même que la dimension esthétique se trouverait parfois disqualifiée par une importance éthique autrement plus urgente.

A une époque où le néolibéralisme domine si outrageusement, fort d’une puissance aussi manifeste que nébuleuse, dissimulé à la vue et aux dires de tous, pénétrant sur la scène politique d’une manière masquée, en fardant ses valeurs réelles, pour mieux la renverser et la dominer – la plupart de nos traditions politiques semblent être à la fois impactées et incapables de contre-mesures. C’est en cela qu’il y a urgence à repenser la place d’un art agissant de manière critique dans la sphère du politique. Dans cette perspective,  la présente invitation à penser l’art et l’activisme politique (quelles que soient les ramifications et les significations d’une terminologie englobant activiste, activisme artistique, artivisme, etc) vise à élucider et à comprendre l’actualité de ses nouveaux modes d’expression du pouvoir.

C’est sur ces prémisses que ce numéro thématique voudrait repenser l’art, partant de l’hypothèse que les artistes et autres travailleurs culturels jouent un rôle essentiel dans la société, parce que les arts sont aussi un terrain de lutte, non seulement pour l’hégémonie culturelle, mais aussi de luttes idéologique et politique. L’objectif de ce dossier serait de réfléchir au rôle des artistes comme activistes politiques, et dans le même temps à leur œuvre militante (comme de nombreuses pratiques artistiques contemporaines pourraient l’illustrer).

Par conséquent, les pratiques alliant le travail artistique à une participation dans la lutte politique seront l’objet principal des analyses de ce dossier. Pour ce faire, il faut sans doute partir du modèle et de la structure socio-politico-économique dans lesquels une pratique artistique se développe et agit, en les couplant à la posture que l’artiste adopte à leur égard. Nous fêtons cette année le centenaire de la Révolution Russe, à laquelle l’édition de ce dossier renvoie fatalement, non pas comme une célébration directe, mais comme une sorte d’éphéméride de la question et de la pensée critiques. Parce que c’est exactement cette relation entre l’art et la société, dans ses diverses modalités de changements et de tensions, au rythme variable, parfois plus critique parfois plus utopique, qui nous intéresse encore – une relation où l’art joue un rôle décisif, celle d’un protagoniste. Un siècle après cette révolution remarquable, nous ressentons encore les répercussions lointaines de ce qui fut un moment stratégique d’ouverture et de réflexion entre d’une part, l’art et ses possibilités directes (ses responsabilités) et d’autre part, l’action politique et sociale.

Il est essentiel de renouer avec la tradition des penseurs tels que Hegel, Marx, Adorno, Marcuse, Althusser, Foucault, Deleuze et Baudrillard, entre autres – pour retrouver la piste d’un art agissant de manière critique dans la société afin de transformer la conscience politique, bien au-delà des seules considérations sur la propagande ou l’aliénation, ou de la cristallisation des « -ismes » artistiques ou politiques.

La complexité et la portée du thème autorisent des approches différentes, dont nous préconisons les entrées suivantes :

  • Confrontation dialogique entre des périodes et des pratiques artistiques culturelles, sociales et politiques variées;
  • Résistance culturelle et action politique des artistes et des travailleurs culturels;
  • Possibilité d’une résistance critique sur le terrain des industries culturelles et de la mondialisation capitaliste : méthodologies, stratégies et effets;
  • Elucidation de propositions d’activisme artistique : caractérisation, objectifs, études de cas, contexte historique;
  • Etude des conditions de production, de présentation et d’exploitation : stratégies de sensibilisation, résistance et lutte devant le néo-libéralisme;
  • Relation et tension entre les institutions du monde de l’art et de la politique, à la fois en termes d’inclusion et d’exclusion;
  • Analyse de la production artistique intégrée à la sphère politique (au sens du collectif), en particulier dans les moments révolutionnaires – par exemple, ce qui advint aux premières années de la Révolution d’Octobre (à partir de 1917), et qui fut la dynamique de l’avant-garde russe, ou au Portugal dans les interventions collectives de rue dans les années suivant le 25 Avril 1974 (Révolution des Œillets).

 

Art and political activism

«Whoever has emerged victorious participates to this day in the triumphal procession in which the present rulers step over those who are lying prostrate. According to traditional practice, the spoils are carried along in the procession. They are called cultural treasures, (…). There is no document of civilization which is not at the same time a document of barbarism». (Walter Benjamin, Theses on the Philosophy of History, thesis VII, Paris 1940)

Thinking about art and political activism implies the articulation of different dimensions such as public space, its social order, the political manoeuvre, the place of art, the structures and dynamics of artistic production and reception, with its regimes of criticism or submission/alienation, the aim and place of the works themselves and the effectiveness of their action, etc. This activism implies an public intervention where we find the fatality of a political confrontation (which we assume here in a broader sense, derived from the etymological meaning of polis as a place of citizenship and community).

If art has always been related to politics, even as a voice of the powers, the critical thinking that emerged with the Contemporary Era as the antithetical mark of the Enlightenment itself, announced an internal tension in the relation between culture and political power. The increased tension that occur especially from the 18th century, was coincident with the autonomy of the artistic sphere and was animated by a public process and by the democratization of culture. In the middle of the 19th century, already within the contradictions of the industrial and bourgeois city, Marx denounced that culture (and art) has tended to be stabilize in history as a voice of the dominant class – well expressed in the epigraphic phrase of Walter Benjamin. Art lost its innocence, and between the freedom of the romantic individualism and the social commitment of the several forms of Realism, it took for itself some critical responsibilities – as Daumier, Courbet, or the importance of caricature  show us.

A new set of challenges and tensions were then launched for culture: between artistic vanguards and political vanguards; Between the autonomy of the artistic sphere and its political and social context; Between production and reception; Between freedom and commitment; Between critical and / or utopian dimension; etc. There are so many possibilities in this field, that it will be necessary to make major efforts of concentration in the artistic production that takes action in the social space, where the aesthetic is sometimes outweigh by the urgency of ethical prominence.

In these times of a globalised neo-liberalism, where its power is both vigorous and nebulous, concealed from public visibility and discussion, entering on the political arena in a somewhat underhand manner to subvert and dominate it, many of the political traditions seems to be innocuous. This requires us to rethink the place of an art that acts critically in the sphere of politics. Under this scenario, we are therefore calling for reflection and debate about art and political activism (in its different meanings and typologies as activist art, artistic activism, artivism, among others).

The challenge for this dossier is to reflect on art from the idea that artists and other workers of culture play an indispensable role in society, because the arts are a field of struggle for cultural, ideological and political hegemony. The challenge is also to reflect on the role of artists as political activists, but simultaneously on their activist artistic work.

To achieve those goals, it is necessary to have present the social, political and economic structure where the artistic practice grows and what position it takes in relation to it. This year marks the  centenary of the Russian revolution, to which this edition inevitably is attached, not as a direct celebration, but rather as a sort of oportunity to reflect critically about it. Because it is exactly the relationship between art and society that has taken place there that here interest to discuss, in its various dimensions of transformation and articulation, more slower or more accelerated, more critical or more utopian, where art assumes a decisive role, a protagonism. A century later of this remarkable revolution, the echoes of the openness of the strategies of reflection between art and its direct possibilities (and responsibilities) of political and social action remains present in our days.
In the tradition of authors such as Hegel, Marx, Adorno, Marcuse, Althusser, Foucault, Deleuze or Baudrillard, among others, it is essential to recover the mark of art that acts critically in society to transform political consciousness beyond the strict connection to propaganda or alienation, or to the crystallization of artistic or political isms.

The complexity of the theme allow for different approaches, some of which are:
• Dialogical confrontation between artistic practices from different historical, cultural, social and political contexts;
• Cultural resistance and political action of artists and culture workers;
• Possible resistance and criticism to the field of cultural industries and capitalist globalization: methodologies, strategies and effects;
• Proposals of artistic activism: characterization, objectives, case studies, historical contextualization;
• Conditions of production, reception and distribution: strategies of resistance and struggle against neo-liberalism;
• Relationship and tensions between the institutions of the world of art and politics, in terms of both inclusion and exclusion;
• Artistic production inserted in a sphere of political action, in its collective meaning, especially in revolutionary moments – just as it happened, as mere examples, in the first years of the October Revolution or in Portugal after the Revolution of 1974.

Fernando Rosa Dias Coordenador Geral de Convocarte
Cristina Pratas Cruzeiro Coordenador do Dossier Temático do nº4/5 de Convocarte — Arte e Activismo político

 

Nota curricular [pt]

A especialista convidada para co-coordenar o Dossier temático dos números 5 e 6, em torno de Arte e Activismo Político, é a investigadora Cristina Pratas Cruzeiro. Licenciada em História, variante de História da Arte pela FLUL, desenvolveu o Mestrado em Teorias da Arte com a dissertação “A caminho da dissolução: A problemática da autoria na arte contemporânea” e o Doutoramento em Belas Artes, na Especialidade de Ciências da Arte com a tese “Arte e Realidade: Aproximação, diluição e simbiose no século XX”. Foi bolseira de Doutoramento da FCT entre 2008 e 2012 e ao abrigo do Programa Sócrates-Erasmus, na Facultat de Geografia i Història, Universitat de Barcelona, Espanha. Actualmente é bolseira de Pós-Doutoramento da FCT desenvolvendo o projecto “Colaboração e Colisão: Intervenção pública e política da arte”. É Professora Assistente Convidada na Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa, investigadora integrada do IHA-FCSH/UNL e CIEB-FBAUL e investigadora associada do CHAM-FCSH/UNL.

Os seus interesses de investigação centram-se na relação das práticas artísticas contemporâneas com a sociedade em diferentes perspectivas, com especial enfoque para a articulação com a política. Como investigadora, tem participado em congressos, conferências e workshops, com comunicações referentes à sua área de especialização e tem publicado diferentes artigos em revistas de natureza científica e académica em Portugal e no estrangeiro. É membro efectivo para as questões artísticas da Comissão Científica da publicação periódica ‘Análise Associativa’, editada pela CPCCRD.

 

Calendário dos trabalhos [pt]

  • Antes de 15 maio : Envio à Coordenação Geral uma «primeira proposta de trabalho» (Título, linhas gerais de trabalho e curriculum breve)
  • Antes de 15 julho (adiado para 31 Agosto): Envio à Coordenação Geral do «texto finalizado» (com imagens, abstract noutra língua do texto e 5 a 10 palavras-chave)
  • Setembro: Apreciação de pares (peer review) do texto apresentado
  • Outubro: Trabalho de revisão científica do texto pelo autor em função das sugestões fornecidas pelos avaliadores
  • Outubro e novembro: Correcções finais e maquetagem dos números
  • Dezembro: Envio aos autores do seu texto final paginado para última revisão
  • Janeiro 2018 : Lançamento dos números

 


Nº 2/3 — ARTE E GEOMETRIA

Almada 9

Almada Negreiros, Começar, 1969

Apresentação do Dossier Temático do nº2/3 de CONVOCARTE

A Geometria é uma das mais importantes matérias de estudo, transversal a todas as grandes civilizações da Antiguidade. (…). A compreensão do espaço através da Geometria reflecte-se ainda na importância das inúmeras associações simbólicas de que é alvo, sendo por exemplo posta ao serviço de fundamentos religiosos, tanto no Ocidente como no Oriente. Seja pela exploração de padrões, pelo estudo das proporções, pela riqueza conferida à composição visual ou pela determinação e desenvolvimento dos fundamentos da perspectiva linear, a Geometria tem um lugar de importância maior na história da Arte. Em épocas mais recentes a exploração da Geometria continuou a trazer novidade e mudança, particularmente nas artes visuais, senão note-se a importância do cubismo, da abstracção geométrica ou mesmo da op art.

Isto faz com que o estudo abrangente das várias formas de aplicação da Geometria na Arte seja essencial. Aceitando que a bibliografia existente no campo da análise geométrica e composicional de pintura, arquitectura ou escultura é considerável, é inevitável notar que a mesma deve mais à iniciativa individual dos seus autores do que a uma linha metodológica estabelecida, como acontece por exemplo na história da arte ou outros campos de análise da imagem (casos de Charles Bouleau, Matila Ghyka, Robert Lawlor ou Martin Kemp).

Reunir estratégias de investigação mais recentes sobre o tema contribuirá para clarificar e enriquecer metodologias no campo da Geometria aplicada à Arte. Estudos de caso podem incluir ainda artistas plásticos contemporâneos que fazem uso de propriedades geométricas na sua obra, aplicações que entrecruzam ciências e percepção visual (como o caso da cartografia) ou mesmo o estudo da relação da Geometria com a simbologia.

Contudo, o tema, com vasta profundidade histórica, artística e cultural, tem estado esquecido nos debates recentes do mundo universitário, como que fora de moda, pelo que a sua convocação de estudos actuais se apresente um desafio particular a que a Convocarte resolveu avocar. Apresentamos alguns motes, com exemplos genéricos, de desenvolvimentos possíveis de propostas de texto. Longe de ser exclusiva, esta é uma amostra das potencialidades do tema:

  • A Geometria na arte, caso da tratadística e a sua preocupação com as medidas, desde a antiguidade até, pelo menos, ao modulor de Le Corbusier.
  • A Geometria como instrumento de estudo da obra de arte, na história e nas teorias da arte, caso dos famosos estudos de Panofsky sobre as proporções na representação do corpo ou sobre a perspectiva, ou estudos de análise de imagem e de composição e a averiguação de princípios geométricos-matemáticos nas obras, tais como a regra de ouro.
  • A utilização de princípios geométricos em movimentos, estilos ou técnicas artísticas, como a abstracção geométrica, a op art, os padrões geométricos na tradição do azulejo, em culturas não figurativas, etc.
  • A Geometria nas várias artes: a métrica na música e na poesia; a regra de ouro na composição de obras de várias artes visuais, da pintura à tipografia; o canon da figura humana, etc.
  • A Geometria na relação entre as artes, em modos de analogia ou de interferência; por exemplo a utilização de padrões geométricos na decoração de edifícios arquitectónicos ou de espaços urbanos.
  • O confronto de tempos e movimentos culturais mais marcados pela Geometria, com outros menos aderentes.
  • A Geometria e a educação artística, como disciplina basilar em diferentes espaços e níveis de ensino artístico.
  • O debate da contemporaneidade da Geometria na arte e a sua possível actualidade ou mesmo crise (ver em exemplo o ensaio de Peter Halley: «A Crise da Geometria», in Arts Magazine, nº10, 1984).

[traduction française – Présentation du dossier thématique nº 2-3 de CONVOCARTE – «Art et Géométrie» ]

Fernando Rosa Dias Coordenador Geral de Convocarte
Simão Palmeirim Coordenador do Dossier Temático do nº2/3 de Convocarte — Arte e Geometria