Arquivo da categoria: Crítica de Arte

CRÍTICA DE EXPOSIÇÕES E EVENTOS – introdução

CRITIQUE D’EXPOSITIONS ET D’ÉVÉNEMENTS [francaise]

ART CRITICISM AND REVIEWS [English]

Este é um espaço aberto a exercícios de crítica de arte ou eventos artísticos no âmbito ou adjacentes às artes plásticas.

Uma parte dos textos de crítica de arte é desenvolvida em cursos de mestrado e doutoramento da FBAUL, mas a Convocarte aceita colaborações exteriores que se queiram propor. A escolha das exposições criticadas é da opção de cada autor, desde que a decorrer ou muito recentes. A Coordenação da Convocarte reserva-se, contudo, ao direito de seleccionar qualitativamente os textos, ou a sugerir ajustamentos antes de publicação. Os textos aceites poderão ainda integrar uma antologia a publicar em dossier próprio da revista. O envio de textos segue os mesmos princípios das publicações Convocarte em termos de direitos descritos nos Processos Científicos e Editoriais.

Pede-se a cada autor, um breve curriculum vitae (máximo de uma página) a acompanhar a sua crítica, e no início do texto a indicação do nome, local e calendário da Exposição ou evento artístico [ver exemplos publicados].

 

Artur Ramos – «O Corpo da Fisionomia»

Artur Ramos – Exposição «O Corpo da Fisionomia» – Faculdade de Belas Artes, Galeria das Belas Artes, Lisboa. Portugal – 9 Maio – 29 Maio 2019

 

Título “Danae”

Danae©leonorfonseca_desenho003

 

A exposição de Artur Ramos, com a designação “o corpo da fisionomia”, de 9 a 29 de Maio de 2019, na FBAUL (Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa), remete-nos para uma viajem ao universo do retrato da figura humana, sob o ponto de vista do autor.
Existe uma aura muito ímpar no conjunto das obras expostas, que só existe pelo conjunto e pela sua disposição que nos leva ao longo de um caminho que começa na ligação à natureza da figura humana, através do seu corpo totalmente nu, ambas em comunhão cúmplice; uma simbiose visual em que ambas as partes ganham notoriedade e relevo enquanto objetos de arte “retratável”. A conexão estética entre o objeto “paisagem natural semisselvagem” e o “corpo feminino” vislumbra-se não só na harmonia das cores, nos pontos de fuga que convergem vindos de um ponto do distante, até aos observadores, e pela súbita “elevação ao estado selvagem” e humano de todos nós.

A certa altura, a coloração ocre e um pouco amarela, em aproximação a tom de pele, que nos surpreende no corpo humano, até ai cinzento, desperta um ponto de viragem, no que diz respeito à nossa “vã apatia” de espetadores: e de novo a arte volta a ser independente do mundo, sendo não só, embora também, representação dele. Existe uma tensão latente entre a busca do detalhe, para alcançar a semelhança, e o inacabado, quando se antecipa o momento em que o modelo “foge de cena” se exposto por tempo demasiado ao impacto da envolvente ou se já não suporta a sua posição estática, característica de uma pose. Estes corpos semipintados são aqui o grande elemento delator desta velocidade de trabalho, mas também, e talvez sobretudo, da tentativa de tornar a obra mais próxima de uma determinada ideia de beleza e perfeição, elevando, pela inclusão da subjetividade, a dignidade da arte e do artista. Existe portanto um estado inacabado que é subjetivo e que tem forte impulso devido à própria natureza da rapidez do trabalho de retrato mas igualmente um valor muito próprio que o artista lhe reconhece, levando-o a incluir na exposição exemplos em que essa subjetividade é claramente óbvia e representativa do universo de resultados do seu empenho.

Ao continuarmos o nosso caminho, verificamos que existe na exposição um percurso que leva o visitante através da observação do corpo, a cabeça como elemento de uma pose com algum erotismo, até que se repousa o olhar em diversos retratos, imagens de cabeças e rostos. A cabeça está presente em todos os trabalhos expostos, relembrando-nos do seu papel enquanto padrão de medida para o desenho proporcional de todo o corpo. Adicionalmente, como é na expressão facial que podemos tentar adivinhar a vida mental, é no seu retrato que o trabalho de Artur Ramos tem um dos seus maiores desafios, pois, se é verdade, que na parede ao fundo do corredor surge um conjunto desafiante de tentativas de captação de temperamentos, diversidade de olhos, golpes de vista e universos pessoais, “a alma espelhada nos olhos”, também é verdade que mesmo no retrato de todo um corpo esse desafio se mantém, porque a cabeça faz parte desse todo corporal, sendo o já referido padrão, com limites rigorosos mas contendo no seu espaço interior alguma margem de interpretação livre por parte do artista.

Conclui-se que além do maior grau de inacabado ou subjetividade existe sempre também um detalhe decisivo e, por vezes, também um eventual distanciamento em perfil, em contraste. As cores utilizadas são o branco, o preto, gama de cinzentos criando imagens com um impacto muito clássico. Estamos então perante uma nova surpresa, com “um imaginário quase estatuário” familiar das Antiguidades Helénica e Românica e lembramo-nos que existem e existiram na vida do autor, múltiplas oportunidades de retrato, uma nostalgia do não feito, que o parece acompanhar, pois que sendo Professor de Retrato na FBAUL, nos parece querer transmitir, desta forma visual, algum sentir, após anos de um olhar cuidado voltado para as linhas humanas decalcadas pelo tempo [e pela genética?] nas faces de quem se quis “aceitar ser objeto de arte”.

Sente-se que José Artur Ramos procura elevar o seu trabalho além do óbvio, criando raízes sólidas, exigentes e rigorosas, para um percurso que, tendo como objetivo fixar em suporte físico uma imagem artística do presente que se reflete nas formas dos modelos retratados, fixa também o presente do próprio, porque cria, na minha opinião, uma identidade autónoma, um cunho pessoal, face a outros artistas, sem se demarcar totalmente. Os seus retratos são sobretudo uma quase indelével busca de beleza superior e o resultado de uma ânsia para compreender outras pessoas e transmitir esse conhecimento pela via visual, sedimentada através da mãe de todas as artes visuais: o desenho.

Em resumo: existe um antes e um depois de nos encontrarmos no mesmo espaço físico destas obras. Não importa a forma “natural” ou “normal” como o artista digna e humildemente nos fala do seu trabalho, o que realmente nos marca é a reinvenção da vida, para melhor, que experimentamos ao contemplá-la estática, nos momentos do tempo captados através do trabalho de desenho de retrato.

Título “Estudo para Pietá”

Estudo para Pietá ©leonorfonseca_desenho002

Fotos Copyright © Leonor Fonseca

 

Nikias Skapinakis – Paisagens Ocultas

Nikias Skapinakis – Paisagens Ocultas – Pintura 2014-2016 – 7 Maio a 11 Junho 2016 – Galeria Fernando Santos, Porto

por Fernando Rosa Dias

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Dominada por uma série de pinturas intituladas Paisagens Ocultas (2014-2016), acompanhadas por uma série de guaches Lago de Cobre (2015), seguindo a mesma linha, esta exposição coloca-nos perante o extremar de uma ideia de pintura pura, sobretudo quando avaliada no percurso de Nikias Skapinakis. Esse percurso sempre se jogou na tensão entre a representação e a construção da pintura, tem colocado historicamente o pintor em contraponto irónico de figurações em tempos de modas da abstracção e de pendores abstractos em tempos de retomas figurativas; mas, nesse contra-ciclo, Nikias sempre foi preconizando as coisas representadas, sejam referentes concretos ou aludidos, a uma passagem para o quadro enquanto transferência. O quadro era sempre assumido como um lugar próprio onde o mundo, ao para aí se transportar e expor, ao se tornar pintura, se transfigurava e até manipulava, obrigando a uma densificação da sua significação, ou seja, em que a pintura não recebia apenas o mundo porque lhe produzia sentidos nessa transferência – e isso definia uma contumaz profundidade e responsabilidade cultural que entendemos assumida no interior do exercício da pintura de Nikias. Perante esta nossa leitura desse percurso de pintura com mais de sessenta anos, o que significa agora esta oscilação para uma pintura pura em Nikias Skapinakis? Continuar a ler

Rule of Thirds

Rule of Thirds – Culturgest, Fundação Caixa Geral de Depósitos – Coreografia: São Castro e António Cabrita – de 1 a 2 de Abril de 2016

por Inês Fonseca

ruleofthirds@2x

No início era o instante.

Três figuras voltadas de costas para o público. Assim começa Rule of Thirds, a mais recente criação de António Cabrita e São Castro, que estreou no passado dia 1 de Abril na Culturgest.

O trabalho fotográfico do mestre Henri Cartier-Bresson é o ponto de partida para uma coreografia, tal como nas obras de Bresson, que quer captar o “instante decisivo”. Esta noção, considerada pelos críticos fotográficos simbolizava a “unidade da obra”, a “habilidade de estar no sítio certo”, resumindo a “genialidade da composição”.

A proposta coreográfica que São Castro e António Cabrita nos apresentam é uma exploração limpa da técnica contemporânea numa execução trabalhosa, mas sempre com um aspecto de leveza implícito. Continuar a ler

José Espinho. Vida e obra

José Espinho. Vida e obra – MUDE – Museu do Design e da Moda, Lisboa – 10 de dezembro 2015 a 6 de maio 2016

por Carlota Pignatelli Garcia

O nome MUDE como conjugação do verbo mudar, mostra-se, a cada visita, o mais indicado para o Museu do Design e da Moda. Porque o que é o design, senão uma arte que nasce da constante necessidade de adaptação a mudanças? É de mudanças que trata a exposição temporária sobre a vida e obra de José Espinho, um dos pioneiros do design em Portugal. De tal forma o é  que, durante o tempo em que exerceu a sua atividade, esta era uma profissão que nem ele nem os seus contemporâneos sabiam denominar. José Espinho considerava-se e apresentava-se simplesmente como “fazedor de obra”. Continuar a ler

Tatiana Macedo: 1989 – Descobrir a distância

Tatiana Macedo: 1989 – Descobrir a distância – Museu Nacional de Arte Contemporânea do Chiado, Lisboa – 21 Novembro 2015 até 31 Janeiro 2016

por Rita Morais Carvalho

A lógica do distanciamento na perspectiva que marca o olhar não é um conceito caracterizável pela sua novidade. Ela existe desde sempre. Percebê-la, porém, assume outros contornos. Pese embora a distância seja entidade sempre e desde sempre presente, poucas são as obras de imagem em movimento – ora de cinema, narrativo ou não, ora de videoarte – que a descobrem. No campo do cinema experimental, conseguiria, num exercício rápido, pensar no exemplo de James Benning como alguém que a compreendeu na sua completude. Se nos debruçarmos especificamente sobre o videoarte, terá possivelmente sido Michael Snow a reflectir com maior densidade sobre o conceito, com obras como Wavelenght, ainda que sempre em associação ao problema, esse central, do tempo e duração no filme. Continuar a ler

João Tabarra – Biotope

João Tabarra – Biotope Colégio das Artes, Universidade de Coimbra –  20 de Novembro de 2015 a 22 de Janeiro de 2016

por Rita Bernardes de Almeida Barreira

O acolhimento descentrado de Lisboa da nova exposição de João Tabarra assinala mais uma síntese do seu contínuo movimento fotográfico, distinguindo-se ainda assim com contornos diversos que provocam um ponto de ordem em relação à sua exposição antológica no Centro de Arte Moderna (2014) e à mais recente mostra da Galeria Filomena Soares com Discrepância (2014).

Se, de facto, assinalamos a continuidade formal do processo artístico do fotógrafo, permitindo-nos emergir numa linha familiar ao seu espectador atento, iremos de igual modo reunir uma experiência consistente— completa— de um programa expositivo que vive da produção e investigação artística em si, mas aqui com uma atenção específica com os referentes e tópicos gravitacionais que a compõem, materializados numa cuidadosa curadoria integrada. Continuar a ler

O Teu Corpo é o Meu Corpo – Coleção de cartazes de Ernesto de Sousa

O Teu Corpo é o Meu Corpo – Coleção de cartazes de Ernesto de Sousa – Museu Coleção Berardo – Curadora: Isabel Alves – 17 Abril 2015 a 3 Abril 2016

por Jaime Alejandro Carmona Múnera

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El cartel:

Por la calle hay un hombre de espaldas con sombrero y chaqueta, que dice: “Teu Corpo é o Meu Corpo” y te lo dice en ingles también. Luego dice: “Colección de carteles de Ernesto de Sousa”, así, sin más. Si el caminante esta inmerso en sus problemas cotidianos, no repara en aquel hombre, que lanza sentencia tan grande y que además no da la cara, si el caminante va un poco ligero de preocupaciones y esta atento por donde camina, se dará cuenta que también dice Museu Coleçao Berardo, si tiene más tiempo se dará cuenta que hay una fecha y seguido dice “entrada gratuita”, si la información anterior no lo cautivo tal vez la entrada gratuita lo haga y más si el caminante es un turista buscando algo que hacer.

Si el caminante se encuentra con este hombre y realmente le interesa, es por que tal vez ya lo vio anticipadamente en internet, y hasta de pronto sepa quien es Ernesto de Sousa,comprenda de donde procede la frase “Teu corpo é o Meu corpo” y sabrá además que el hombre que esta de espaldas es Joseph Beuys, y tal vez solo tendrá la duda que hace en un mismo espacio: la frase “Teu corpo é o meu corpo”, la colección de carteles de Ernesto de Sousa y Joseph Beuys. Y por esto asistirá a la ver la exposición Así es el cartel que promociona la exposición de la colección de carteles de Ernesto de Sousa, que se realiza en el Museu Coleçao Berardo. Continuar a ler

Hein Semke. Um Alemão em Lisboa

Exposição “Hein Semke. Um Alemão em Lisboa” – CAM – Fundação Calouste Gulbenkian – Curadoria: Ana Vasconcelos – de 20 de Novembro de 2015 a 13 de Junho 2016

por Inês Fonseca

Hein Semke

 

Hein Semke, artista plástico hamburguês nascido a Junho de 1899, foi voluntário na Primeira Guerra Mundial em 1916. Sendo desmobilizado em 1919 trabalha em diversas áreas e envolve-se em revoltas anarquistas, o que o leva a ser condenado a seis anos de prisão solitária. Em 1929 chega a Lisboa onde trabalha numa fábrica de tecidos em Chelas. Contudo devido a problemas pulmonares, é forçado a regressar à Alemanha, sendo declarado inválido para trabalhos que envolvessem esforço físico elevado. É nesta sequência que decide, também por encorajamento dos seus amigos, estudar artes, dedicando-se exclusivamente à actividade até ao final da sua vida. É em 1932 que se instala em Portugal com a sua primeira mulher, Martha Ziegler. A sua casa em Linda-a-Pastora, local onde se fixa, é “um ponto de convívio de artistas e escritores” até 1949. Relacionava-se e convivia no círculo de intelectuais e artistas lisboetas como Fernando Pessoa, Mário Eloy, Vieira da Silva, Diogo de Macedo ou Jorge Barradas.

Em 1933 expõe as suas obras com os modernistas portugueses. Os críticos Portugueses consideraram o seu trabalho como “ duro e místico, ainda com algumas reminiscências românico-góticas, revelando influência do Expressionismo de Barlach”.

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Helena Almeida – «A Minha Obra é o Meu Corpo, O Meu Corpo é a Minha Obra»

Helena Almeida – Exposição «A Minha Obra é o Meu Corpo, O Meu Corpo é a Minha Obra» – Museu de Serralves, Porto. Portugal – 17 Outubro -10 Janeiro 2016

por Letícia de Melo

A capitã em habitar pinturas – e não só!

Até o momento trata-se da exposição que levou mais a fundo o conjunto historiográfico da obra de Helena Almeida (1934), não se tratando de uma retrospectiva, mas sim, de um aprofundar em pertinências cada dia mais relevantes para o cenário artístico contemporâneo.

O percurso de Helena começou com Pintura, na Faculdade de Belas-Artes de Lisboa, nos anos 60 do século XX. A pintura já salientava a potência desbravadora para além do campo pictórico, mas Helena Almeida pretendia dominar o espaço expandido. Queria entrar no quadro, fundir-se nele.

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Um olhar sobre a exposição de Manuel Aires Mateus: “Cadernos de Alhambra”

Um olhar sobre a exposição de Manuel Aires Mateus: “Cadernos de Alhambra” – Galeria João Esteves de Oliveira – 17 Setembro a 6 Novembro de 2015

por Rui Miguel Dias Carvalho

À primeira vista, formalmente, estamos perante um conjunto de desenhos feitos a negro, com linhas frequentemente quase retas e pequenos apontamentos que não conseguimos apreender na sua totalidade, a par de alguns espaços brancos entre eles. Num segundo passo, encontramos alguns signos, como relógios, arcos e aquilo que parecem ser formas de paralelepípedos e simetrias que parecem aludir a arquitetura. Assim, quando olhamos para o título da exposição “Cadernos de Alhambra” entendemos que estávamos corretos na intuição: existe uma alusão arquitetónica explícita em vários dos desenhos, os quais, por vezes, são mais simples mas, outras tantas vezes, complexificam-se criando a ilusão de uma representação algures entre essa complexidade das formas, tal qual rendilhado detalhado, e um espaço entre desenhos que é ocupado pelo branco da folha, como se o artista nos quisesse transmitir o que sentiria ao viajar entre um edifício e outro, em termos de espaço a percorrer entre construções.

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